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A chuva que não me molhou, mas inundou minha alma

A pouco, nesta tarde de sábado, choveu com média intensidade no sítio por, pelo menos, duas horas. Uma boa chuva diria, uma chuva abençoada. Agora, já noite e a chuva persiste generosa, molhando todos os elementos, aquietando todos os seres.

A primeira chuva nesse ano que não me molhou, não me encharcou, não deixou meus ossos doloridos, nem me abateu o espírito, não me fez chorar de tristeza e desgosto ao ver minhas roupas, cobertas e colchão molhados.

A sensação de estar dentro de uma casa coberta e ver a chuva caindo do lado de fora me encheu de prazer e de uma profunda satisfação. Como um roto soldado raso senti-me protegido pela pátria e como um filho pródigo acolhido pela mãe que ainda o ama.

Não resisti a essa sensação de segurança mínima, suspirei profundamente e acabei chorando de emoção ao pensar quantas chuvas tomei e quanto frio passei nesse ano de 2021, vivendo sozinho e isolado no sítio, com raras visitas de amigos e nenhuma de parentes ou familiares. Hoje, posso dizer um pouco do que sente um refugiado que deixa tudo pra trás e segue rumo ao desconhecido, por um mundo de pessoas indiferentes a sua dor.

As pessoas se aproximam da gente quando estamos bem, quando temos farturas, quando podemos proporcionar prazeres culinários e entretenimento para elas. Elas nunca se aproximam com gestos de solidariedade gratuitos, nunca se oferecem para dividir, compartilhar desgastes, para ajudar, mesmo a gente caindo doente. A pandemia ajudou a acentuar essas características das pessoas que nos são “próximas”, forneceu as justificativas necessárias e aceitáveis para nossas ausências nas vidas das pessoas que acreditamos amar. Hoje os amados se vão, morrem e são pranteados de maneira virtual, como se fossem leprosos da antiguidade.

Nunca fui de cobrar solidariedade de amigos, de familiares e de ninguém, nem nos piores momentos que já passei, nem nos momentos em que minha vida correu sérios riscos, mas, nesse instante, senti necessidade de dizer o que digo agora, essas coisas que nos sobem à garganta como quem rumina. São coisas que lamento, não precisava ser assim, esse gosto amargo na boca.

É muito triste certas constatações que fazemos, na maturidade de nossas vidas, quando olhamos a nossa volta e percebemos com quem dividimos a existência… Quantas vãs e pequenas promessas recebidas, quantas pequenas mentiras declinadas sob o manto das boas intenções, quantas palavras jogadas aos ventos insensíveis, quanta indiferença a nos cobrir a cabeça, quantas vezes nos invisibilizaram, nos transformaram em abstrações.

Bom cabrito é aquele que não berra, assim permaneci até quando padeci um câncer eivado de malignidade, permaneci calado até esse instante.

Na verdade, cheguei a triste constatação de que somos apenas úteis e necessários para demandas e problemas alheios. Nunca somos chamados para as festas e para os encontros. Na verdade, somos chamados quando não há mais ninguém a ser chamado. Na falta de cão caça-se com gato, fazer o quê, né? Essa, infelizmente, sempre foi a práxis das nossas convivências.

E porque isso acontece numa família numerosa em que todos dizem se amar?

Será que somos uns narcisistas extremamente autocentrados ou nossa espiritualidade é tão rasa quanto a água do aquário da sala de estar? Seríamos demagogos contumazes ou a hipocrisia é elemento biológico a correr por nossas veias?

Na verdade, acredito que as pessoas nos veem como sendo aquele sujeito forte, destemido, inabalável, aquele que sempre resolve os piores problemas que se apresentam no cotidiano, aquele homem acostumado aos sofrimentos recorrentes, aquele que tem energia para dar, dar, dar, e que, por ser o que é, nunca é necessário receber. Triste e lamentável engano, afinal somos tão frágeis em nossa volátil humanidade, nunca conseguimos ser fortes o tempo todo.

Com o correr dos anos, com o advento da maturidade, com o desenvolvimento da capacidade de nos aprofundarmos em demoradas reflexões, da nossa capacidade de discernir, percebemos que no mundo das relações humanas, é necessário sermos, a cada dia, mais magnânimos, mais generosos, mais empáticos, resilientes, gratos e acima de tudo entendermos que certas compensações e contrapartidas só teremos numa dimensão espiritual. É aquela ideia recorrente de que só Deus ouve nossos gemidos, só Ele entende o secreto e o sagrado que perpassam em nossos corações.

A vida é um sopro, diria alguém. Hoje, estamos, mas amanhã somos apenas uma lembrança, um rosto pálido num porta retrato de uma estante empoeirada, uma lufada de vento que passou pelas pessoas e que se perdeu nos corredores escuros do tempo, ventos e brisas que não retornam mais.

De qualquer maneira e sob as piores intempéries, cá estou vivo e faceiro, noventa e cinco por cento do corpo interno da minha casa está coberta, o que foi suficiente para me manter seco. Na varanda ainda não há madeiramento e muito menos telhas. É com um passo de cada vez que se faz a caminhada, é de tijolo em tijolo que se erguem as estruturas, é de telha em telha que se completam as coberturas.

O teto ficou bem alto, quase 6 metros de altura! Quando se entra na casa tem-se a impressão de que está entrando num salão de igreja. Vai dar, num futuro próximo, para fazer o espaçoso sótão no centro da casa. Deve ser o espaço dos netos e netas, talvez seus esconderijos encantados.

E assim, o sítio irá se formando, de canteiro em canteiro, de flor em flor, se transformando para que um dia, quando estiver belo e completo, possa a todos receber com amor para a convivência fraterna e solidária, para dividirmos as sombras das grandes e folheadas árvores, árvores de galhos e frutos generosos que nos doam de maneiras gratuitas a presença benfazeja de suas existências.

Essa próxima semana acredito que conseguirei fechar a casa com portas e janelas. Só trabalhando para, quem sabe, conseguir comprá-las para fechar os vãos abertos. Não tenho certeza de nada ainda. Por enquanto, lobos, teiús, sapos e cobras entram e saem na hora que bem entendem. Pássaros e sabiás voam de peça em peça, não há barreiras físicas para eles, não há portas e janelas. Esses bichinhos, criaturas de Deus, filhos da nossa mãe natureza, emocionam-me com suas presenças. Esses são meus próximos, esses são verdadeiros, constantes e efetivas companhias.

O importante é que chuva não tomo mais, só mesmo quando queira e do lado de fora da casa.

Estou me sentindo abençoado!

Deus seja louvado sempre!!

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